domingo, 23 de julho de 2017

Joaquim

Piscou os olhos com dificuldade. A vista ainda turva.
Lembrava-se do que sonhara. A sua casa, no cimo do monte, com vista para o porto de S. Martinho. Ultimamente fazia pouco mais que cuidar das suas flores e ficar a apreciar a vista de sua casa. Uma vida tranquila. De vez em quando descia à vila, mas os joelhos já não eram o que tinham sido.
Gradualmente, a vista foi-se-lhe focando e percebeu que estava no mesmo sitio. Na mesma dolorosa posição. Duas enfermeiras olhavam-no e pareciam estar a dizer algo, mas só o percebeu mais tarde.
“O pequeno-almoço, Sr. Joaquim!”.
Eram umas queridas. Não fossem elas, já teria enlouquecido.
Sabia que o tinham deixado ali para morrer. Ninguém lho dizia, mas via nos olhos dos médicos. Médicos na flor da idade que se achavam capazes de enganar um velho como ele, dando-lhe esperanças vãs. Ele, que já vira passar noventa e duas primaveras. Ele, que passara tormentos, desde a guerra, a ter que emigrar para sustentar os filhos e, mais recentemente, à morte da mulher. Pobre Letícia... Era, de certa forma, reconfortante, saber que a veria em breve.
Mas até lá, saberia que iria sofrer. Já tinham passado dez dias e ainda não havia sinais de que iria ser finalmente operado. Havia já maldiçoado dezenas de vezes as suas mãos trémulas, por o terem feito cair naquele dia, partido ambos os pés.
As enfermeiras elevavam agora o colchão para lhe poderem dar de comer. Há muito que se despira desses orgulhos. É mesmo verdade quando dizem que se volta a ser criança nesta idade.
Pelo canto do olho, vislumbrou as bonitas dálias que a filha lhe trouxera no dia anterior. Enormes, de uma cor púrpura vibrante.
Que ironia.
Outrora tinha sido ele a vender flores, que faziam as graças de muita gente. As suas flores alimentavam e faziam perdurar a paixão de namorados, a gratidão de filhos para com as suas mães, o entusiasmo de noivos, a cumplicidade de amizades de longa data, e até serviam de consolo e luto àqueles a quem tinha falecido alguém próximo. Amores-perfeitos, rosas, túlipas, orquídeas, girassóis, gerberas...
E ali estavam agora, aquelas dálias púrpura, a trazer um pouco de cor àquele quarto de hospital, branco e melancólico. Era vez dele receber flores após tantos anos.
Depois de lhe terem dado de comer, Joaquim deixou-se embalar novamente, num estado de apatia em que fragmentos de pensamentos, sons, imagens e emoções, desligadas umas das outras, pairavam como flocos de neve num dia calmo de Inverno.
Esperava o seu destino.

Baseado numa história verídica.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

1755

O céu estava negro e o gume da espada frio.
Polia-a todas as noites para tranquilizar a mente que teimava a voltar a tempos antigos. Sentia-se perdido.
Usava ainda o medalhão de padre ao pescoço, pois não se habituara à sensação de andar sem ele. Mas já não lhe significava nada. O padre que em tempos andara de povoação em povoação, a pregar os bons ensinamentos de Deus, não passava de um ser fútil e cego. Depois de tudo o que acontecera, era impossível acreditar em Deus.
Um suor frio cobria-lhe a pele, misturado com poeira da estrada. Vestia farrapos de uma túnica que só um tolo acreditaria que fora branca em tempos.
Mas fora-a. Nunca a tivera tão imaculada como no dia em que aquela monstruosa onda veio.
Milhares de fiéis estavam na rua, a festejar o tão aguardado dia de Todos-os-Santos. Celebrara a missa ao primeiro raiar da manhã. As ruas de Lisboa estavam decoradas com flores e ramos de eucalipto. Cheiravam a pão quente, tarte de maçã, doce de ovos e sonhos.
Sonhos que seriam destruídos e enterrados a meio da manhã. Estava prestes a terminar a procissão quando a terra tremeu, rugindo de forma assustadora e abrindo enormes fissuras debaixo dos pés de Lisboa. Durante 6 segundos, ficara sem chão. Tremera tão violentamente que parecia que a alma lhe ia ser arrancada do corpo.
Edifícios ruíram, esmagando centenas. Gritos animalescos impregnaram o ar. De repente, não havia procissão. O altar que levava Nosso-Senhor caíra, despedaçado-se, e pessoas corriam em todas as direções. Mais tarde ouvira histórias que o rio recuara subitamente pouco tempo depois, como que assustado por todo o alvoroço.
Lembrava-se de ter começado a rezar no meio do tumulto, mas fora atropelado várias vezes por pessoas que corriam e gritavam em pânico. Um inferno de chamas erguera-se ao fundo da praça onde estava e fora então que percebera que tinha que fugir. 
Mas para onde? As ruas sinuosas e estreitas da cidade estavam atulhadas com destroços, pessoas, sangue e fogo.
Fora então que a vira, a onda. Entre duas casas parcialmente destruídas, vislumbrara o rio erguer-se sobre si próprio, numa massa de água, espuma e fúria gigantescas. 
Sentiu um arrepio. A noite estava fria.
- Raios me partam! - praguejou o padre que já não era padre.
Percebeu então que se cortara enquanto polia a espada. Num esgar que poderia ter sido de desespero, atirou a espada para longe.
Como poderia um homem acreditar em Deus tendo visto o inferno com os próprios olhos?