Lembrava-se do que sonhara. A sua casa, no cimo do monte, com vista para o porto de S. Martinho. Ultimamente fazia pouco mais que cuidar das suas flores e ficar a apreciar a vista de sua casa. Uma vida tranquila. De vez em quando descia à vila, mas os joelhos já não eram o que tinham sido.
Gradualmente, a vista foi-se-lhe focando e percebeu que estava no mesmo sitio. Na mesma dolorosa posição. Duas enfermeiras olhavam-no e pareciam estar a dizer algo, mas só o percebeu mais tarde.
“O pequeno-almoço, Sr. Joaquim!”.
Eram umas queridas. Não fossem elas, já teria enlouquecido.
Sabia que o tinham deixado ali para morrer. Ninguém lho dizia, mas via nos olhos dos médicos. Médicos na flor da idade que se achavam capazes de enganar um velho como ele, dando-lhe esperanças vãs. Ele, que já vira passar noventa e duas primaveras. Ele, que passara tormentos, desde a guerra, a ter que emigrar para sustentar os filhos e, mais recentemente, à morte da mulher. Pobre Letícia... Era, de certa forma, reconfortante, saber que a veria em breve.
Mas até lá, saberia que iria sofrer. Já tinham passado dez dias e ainda não havia sinais de que iria ser finalmente operado. Havia já maldiçoado dezenas de vezes as suas mãos trémulas, por o terem feito cair naquele dia, partido ambos os pés.
As enfermeiras elevavam agora o colchão para lhe poderem dar de comer. Há muito que se despira desses orgulhos. É mesmo verdade quando dizem que se volta a ser criança nesta idade.
Pelo canto do olho, vislumbrou as bonitas dálias que a filha lhe trouxera no dia anterior. Enormes, de uma cor púrpura vibrante.
Que ironia.
Outrora tinha sido ele a vender flores, que faziam as graças de muita gente. As suas flores alimentavam e faziam perdurar a paixão de namorados, a gratidão de filhos para com as suas mães, o entusiasmo de noivos, a cumplicidade de amizades de longa data, e até serviam de consolo e luto àqueles a quem tinha falecido alguém próximo. Amores-perfeitos, rosas, túlipas, orquídeas, girassóis, gerberas...
E ali estavam agora, aquelas dálias púrpura, a trazer um pouco de cor àquele quarto de hospital, branco e melancólico. Era vez dele receber flores após tantos anos.
Depois de lhe terem dado de comer, Joaquim deixou-se embalar novamente, num estado de apatia em que fragmentos de pensamentos, sons, imagens e emoções, desligadas umas das outras, pairavam como flocos de neve num dia calmo de Inverno.
Esperava o seu destino.
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| Baseado numa história verídica. |

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