O céu estava negro e o gume da espada frio.
Polia-a todas as noites para tranquilizar a mente que teimava a voltar a tempos antigos. Sentia-se perdido.
Usava ainda o medalhão de padre ao pescoço, pois não se habituara à sensação de andar sem ele. Mas já não lhe significava nada. O padre que em tempos andara de povoação em povoação, a pregar os bons ensinamentos de Deus, não passava de um ser fútil e cego. Depois de tudo o que acontecera, era impossível acreditar em Deus.
Um suor frio cobria-lhe a pele, misturado com poeira da estrada. Vestia farrapos de uma túnica que só um tolo acreditaria que fora branca em tempos.
Mas fora-a. Nunca a tivera tão imaculada como no dia em que aquela monstruosa onda veio.
Milhares de fiéis estavam na rua, a festejar o tão aguardado dia de Todos-os-Santos. Celebrara a missa ao primeiro raiar da manhã. As ruas de Lisboa estavam decoradas com flores e ramos de eucalipto. Cheiravam a pão quente, tarte de maçã, doce de ovos e sonhos.
Sonhos que seriam destruídos e enterrados a meio da manhã. Estava prestes a terminar a procissão quando a terra tremeu, rugindo de forma assustadora e abrindo enormes fissuras debaixo dos pés de Lisboa. Durante 6 segundos, ficara sem chão. Tremera tão violentamente que parecia que a alma lhe ia ser arrancada do corpo.
Edifícios ruíram, esmagando centenas. Gritos animalescos impregnaram o ar. De repente, não havia procissão. O altar que levava Nosso-Senhor caíra, despedaçado-se, e pessoas corriam em todas as direções. Mais tarde ouvira histórias que o rio recuara subitamente pouco tempo depois, como que assustado por todo o alvoroço.
Lembrava-se de ter começado a rezar no meio do tumulto, mas fora atropelado várias vezes por pessoas que corriam e gritavam em pânico. Um inferno de chamas erguera-se ao fundo da praça onde estava e fora então que percebera que tinha que fugir.
Mas para onde? As ruas sinuosas e estreitas da cidade estavam atulhadas com destroços, pessoas, sangue e fogo.
Fora então que a vira, a onda. Entre duas casas parcialmente destruídas, vislumbrara o rio erguer-se sobre si próprio, numa massa de água, espuma e fúria gigantescas.
Sentiu um arrepio. A noite estava fria.
- Raios me partam! - praguejou o padre que já não era padre.
Percebeu então que se cortara enquanto polia a espada. Num esgar que poderia ter sido de desespero, atirou a espada para longe.
Como poderia um homem acreditar em Deus tendo visto o inferno com os próprios olhos?
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